Drácula: A Última Viagem do Deméter

Os roteiristas Bragi F. Schut (Samaritano) e Zak Olkewicz (Rua do Medo: Parte 2) foram brilhantes ao pegar poucas páginas de um livro clássico da literatura mundial e transformá-las em filme. “Drácula: A Última Viagem do Deméter” é baseado unicamente no diário de bordo do capitão, que no romance de Bram Stoker de 1897, ocupa apenas algumas páginas de uma notícia de jornal sobre um navio desgovernado que chega da Transilvânia à Inglaterra aparentemente sem nenhum sobrevivente. Esta parte da história nunca foi muito desenvolvida no cinema, várias vezes foram feitas menções ao navio que transporta Drácula para a Inglaterra mas só de forma en passant. O diretor André Øvredal (A Autopsia), pega este tema, insere atmosfera de suspense e claustrofobia e acrescenta referências a outro clássico da literatura mundial, “As Aventuras de Huckleberry Finn” de 1884, para criar este longa de terror, suspense e drama, repleto de queixas sociais com temas importantes como o racismo, falta de escolha por parte das mulheres e o progresso descartando o antigo na sociedade.

Na trama, o antigo navio Demeter, do capitão Eliot (Liam Cunningham) é contratado para levar caixões para a Inglaterra. Quando os marinheiros locais fogem do trabalho ao verem os símbolos de dragões nos caixões, o médico Clemens (Corey Hawkins) é convocado para integrar a tripulação que conta com outros poucos homens e um menino chamado Toby. A bordo do Demeter mortes estranhas começam a acontecer, ficando claro que o mal encarnado está lá.

 

O personagem Drácula aqui evoca apenas “Nosferatu” de 1922, sem a personificação humana do conde que foi posteriormente inserida para modernizar o personagem. Ele aqui é simplesmente um monstro inteligente, parecendo muito um morcego gigante. É utilizado o recurso criado em 1975 por Steven Spielberg em “Tubarão”. A criatura é pouco mostrada inicialmente, criando-se a atmosfera de medo nos sons, luz e sombra.

Este longa, pode ser visto como um filme de terror a bordo de um navio, pouco importando se é um vampiro ou qualquer outra criatura, mas para o leitor de Bram Stoker é um delicioso presente, com referências que só ele irá entender, como o símbolo do dragão. Drácula vem de “dracul”, que quer dizer filho do dragão.  De forma leve, o diretor insere na trama a questão do racismo. Clemens, nosso carismático protagonista é negro, e por isso, apesar de ser um excelente médico está sempre sofrendo preconceito, principalmente profissional. Há a analogia entre o mal inexplicável de um sugador de sangue com o mal inexplicável do racismo.