Crimes do Futuro

O diretor e roteirista, David Cronenberg, é extremamente multifacetado. Passa por dramas densos como “M. Butterfly”, até filmes que exploraram o grotesco, ficção científica e temas mais profundos como “A Mosca”, “Experiência Alucinante” e o próprio “Crimes do Futuro”. Se em “Experiência Alucinante” abordou o poder da mídia televisiva de alienar, hipnotizar e controlar o público, aqui ele aborda a arte, seus conceitos, controvérsias, a busca desmedida pelo novo e muitos outros subtemas. Porém, muito mais do que um filme feito para os fãs de Cronenberg, “Crimes do Futuro”, assim como a arte em si, é muito mais do que entender e ser conhecedor, é uma questão de sentir. Prazer, dor ou puro desconforto? Fica a critério de quem o assiste.

Refilmagem do homônimo canadense feito 1970 pelo próprio David Cronenberg. Em um futuro distópico, Saul Tenser (Viggo Mortensen) é um homem com uma anomalia, seu corpo produz órgãos dispensáveis para o corpo humano. Já que faz extração desses órgãos com frequência, ele e a cirurgiã Caprice (Léa Seydoux) fazem das constantes extrações, performances artísticas que fascinam o público.

 

No universo do longa, as pessoas pararam de ter infecções e dor, as cirurgias são feitas de forma eletrônica sem toque físico e essas incisões causam prazer sexual. Fica clara a relação entre perfurar e penetração. Um fetiche sado masoquista que parece acometer quase toda a população. Há, claro, aqueles que acreditam que o mundo se perdeu, não sentem fascínio pelas performances e querem que o mundo volte a ser como foi um dia. Temos também quem considere a condição de Saul uma evolução da espécie e queira criar outras formas de evolução.

Por fim, o enredo quase que pouco importa, não temos aqui uma narrativa linear com inicio, clímax e desfecho para ser acompanhada. A intenção é muito mais levantar questionamentos sobre o que é arte, se o ser humano deveria mesmo não ter doenças, não sentir dor e até mesmo um comentário particular sobre sexualidade e exibicionismo.

O filme carrega totalmente a assinatura de seu diretor. Obrigatório para fãs de Cronenberg, podendo incomodar bastante o público comum.