Os Roses: Até Que a Morte os Separe

Os Roses: Até Que a Morte os Separe é uma comédia dramática com um tom de humor ácido, dirigida por Jay Roach (O Escândalo) e escrita por Tony McNamara (Pobres Criaturas). O longa é um remake do clássico de 1989, A Guerra dos Roses, estrelado por Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito, que, por sua vez, já era baseado no livro de 1981, The War of the Roses, de Warren Adler. Esta nova versão traz uma abordagem contemporânea para a mesma história, mantendo o foco no humor negro e na crueldade do casal em sua disputa. A produção conta com os próprios protagonistas, Olivia Colman e Benedict Cumberbatch, como produtores executivos.

Sinopse: “A trama gira em torno de Ivy (Olivia Colman) e Theo Rose (Benedict Cumberbatch), um casal que, à primeira vista, parece ter uma vida perfeita: carreiras de sucesso, um casamento feliz e filhos maravilhosos. Ivy é uma chef em ascensão e Theo, um arquiteto renomado. No entanto, a fachada de perfeição começa a desmoronar quando o projeto profissional de Theo fracassa, enquanto a carreira de Ivy decola. Essa inversão de papéis acende um pavio de ressentimento e competição escondidos, levando a uma disputa feroz e destrutiva pelo divórcio e pela casa onde moram. O filme explora de forma satírica e dramática como um casamento, antes amoroso, pode se transformar em um campo de batalha repleto de mágoas e confrontos.”

À primeira vista, o casamento de Ivy e Theo Rose é o retrato de um conto de fadas moderno, com carreiras de sucesso, uma casa perfeita e uma vida de aparências cuidadosamente construída. No entanto, o filme desconstrói essa fachada de maneira magistral, revelando as fissuras sob o verniz da perfeição. A crise não é instantânea, mas um processo gradual e inevitável, desencadeado pela inversão de papéis profissionais: enquanto a carreira de Ivy decola, a de Theo desaba. Essa mudança na dinâmica de poder serve como gatilho para uma guerra fria de ressentimentos e competitividade, expondo as inseguranças e as mágoas há muito tempo reprimidas. A narrativa constrói a tensão de forma inteligente, mostrando que a batalha pelo divórcio não é um rompimento súbito, mas a consequência lógica de um relacionamento que, por baixo da superfície, já estava em colapso.

O filme não se contenta em ser apenas um drama sobre divórcio. Ele muda o tom, que a princípio é de uma comédia romântica, para um humor negro e cruel a fim de satirizar a instituição do casamento e a disputa de bens materiais. Essa mudança é vista de forma mais significativa em seu último ato. O tom se torna tão pesado que, mesmo com as disputas sendo mostradas como uma comédia, sentimos o peso do quão longe esses personagens vão para se sobressair nesse fim de relacionamento. Eu ri de algumas situações, mas ao mesmo tempo me indaguei se deveria estar rindo daquilo ou não. No geral, acabei achando o filme bem triste, apesar da comédia inserida para amenizar algo muito mais sério.

O coração do filme reside nas performances de Olivia Colman (A Favorita) e Benedict Cumberbatch (O Jogo da Imitação), que entregam comédia e drama na medida certa e com muitas camadas. Os dois conseguem transmitir, ao mesmo tempo, um tom encantador e detestável. No início, conseguimos ver como eles são bons juntos e, gradualmente, desejamos que eles apenas se separem e sigam suas vidas. A rivalidade entre eles surge de forma gradativa, a ponto de, na parte final, existir apenas veneno e ironia. Colman é magistral em sua representação da ambição e da fúria contida de Ivy, enquanto Cumberbatch captura perfeitamente a fragilidade e o ego ferido de Theo. Juntos, eles criam uma dinâmica de confronto fascinante, onde cada olhar, cada sarcasmo e cada ação mesquinha revelam a profundidade da mágoa e do ressentimento.

Os Roses: Até que a Morte os Separe funciona muito bem como uma comédia e pesa a mão no tom ácido ao transformar pessoas amorosas em criaturas odiosas. A trama reflete as pressões da sociedade moderna, como a obsessão pelo sucesso material, a competição no ambiente de trabalho e as expectativas irreais impostas aos relacionamentos. O conflito entre Ivy e Theo não é apenas pessoal, mas também um espelho das inseguranças e dos papéis de gênero que ainda permeiam a nossa cultura. Ao trazer essa história para o século XXI, o filme nos convida a refletir sobre como o dinheiro, o ego e o ressentimento podem corromper as relações humanas, questionando a própria ideia de “felizes para sempre” e nos lembrando que, às vezes, o fim pode ser muito mais cruel do que o início foi belo.