O Último Azul
O Último Azul é um novo filme nacional de drama e ficção científica, dirigido por Gabriel Mascaro, conhecido por obras como Divino Amor (2019) e Boi Neon (2015). Antes de sua estreia formal nos cinemas, o longa estreou em circuitos de festivais, ganhando destaque e reconhecimento internacional. Seu maior feito até o momento foi ser premiado com o Urso de Prata no 75º Festival de Berlim, a segunda maior honraria do evento. Com uma mistura entre fábula e ficção científica, o longa consegue destacar a beleza natural das paisagens amazônicas e nos faz pensar em como nós tratamos os idosos.
Sinopse: “Em um Brasil futurista e distópico, onde o governo força idosos a se mudarem para colônias isoladas, a protagonista Tereza (Denise Weinberg), uma mulher de 77 anos, se rebela contra o sistema. Ela se recusa a ser enviada e, em vez disso, embarca em uma jornada de barco pela Amazônia com um objetivo: realizar seu último desejo de voar de avião pela primeira vez. Ao longo de sua viagem, que se transforma em uma metáfora para a busca por liberdade e autonomia, ela encontra personagens inesperados, como Cadu (Rodrigo Santoro), e precisa lidar com as consequências de sua fuga em um mundo que tenta tirar dela o direito de escolha e de viver.”
O Último Azul nos apresenta uma distopia brasileira que pode ser vista como um espelho metafórico da nossa realidade atual. A premissa de um governo que segrega idosos em colônias reflete a forma como a sociedade marginaliza e invisibiliza a população mais velha. Embora não seja totalmente futurista, notamos uma opressão clara sobre essas pessoas, o que nos leva a refletir sobre nosso próprio livre-arbítrio. O sistema é desumano e a narrativa nos força a questionar até que ponto valorizamos a produtividade e a juventude em detrimento da sabedoria e da experiência. O que acontece com quem não se encaixa no ritmo frenético da economia? Provavelmente será levado pelo “Caça Velho” e tratado como um incapaz.
Toda essa premissa opressora atinge a protagonista Tereza, de 77 anos, que se recusa a aceitar o destino que lhe foi imposto. Ela decide fugir, não apenas por um ato de rebeldia, mas em uma busca poética por dignidade e liberdade. O fato de ela querer experimentar coisas novas apenas agora também revela como o sistema a conduziu unicamente para o trabalho, sem tempo para mais nada. Com o tempo, os sonhos também morrem. Ela quer mostrar que a vida pode ser vivida em sua totalidade. A atuação de Denise Weinberg é, sem dúvida, um dos grandes pilares do filme. Ela demonstra uma determinação que torna sua jornada incrivelmente tocante, e aprendemos muito com a personagem.
A paisagem amazônica não serve apenas como cenário, mas também como uma personagem. Ela nos dá um toque de realidade e, ao mesmo tempo, nos mostra elementos mágicos que transformam a fuga de Tereza em algo grandioso e com mais sentido. As cenas contemplativas do barco singrando o rio também nos transmitem um ar de melancolia e conseguem nos inserir nesse mundo que, embora belo, ainda é opressor com os idosos. O filme ainda dedica um tempo para criticar o ser humano: ele cria, destrói e, quando não precisa mais de algo, o descarta na natureza. Senti falta de saber como seriam essas colônias. O filme não as mostra, pois não é o seu intuito, mas gostaria de ter a oportunidade de conjecturar sobre o local.
O Último Azul não é um daqueles filmes que entrega tudo “mastigado”. Ele nos faz pensar e refletir sobre os conflitos e as reflexões mostradas em tela. O uso da distopia para exagerar situações reais é empregado de uma ótima forma, abrindo nossos olhos e nos incentivando a tratar nossos idosos com mais dignidade e carinho. Este longa não é apenas uma crítica social, mas também uma ode à resiliência do espírito humano, que merece ser livre e fazer o que bem entender. Precisamos lembrar que todos nós seremos idosos um dia, e é importante valorizar todas as fases da vida.