Jay Kelly

Há quem diga que em “Jay Kelly” Geroge Clooney interpreta a si mesmo. Contudo, essa afirmação está bem longe da verdade. Apesar de interpretar um ator bem-sucedido, como ele mesmo, Kelly é um personagem atormentado por sua incompletude e dúvidas sobre se escolheu o caminho certo. Tendo sempre se dedicado a carreira e ao sucesso em detrimento da família e amigos, Kelly se vê completamente confuso ao encarar a realidade de que não construiu laços maciços com seus entes queridos. Jay Kelly, é um filme de jornada, não só pelas belíssimas passagens da Europa percorridas de carro, a pé e trem, como pela mente de um ator que questiona suas escolhas de vida como homem.

O filme que foi lançado como comédia, carrega bastante drama e melancolia, utilizando paisagens bucólicas, arrependimentos e lagrimas no olhar de seus atores. Não só Clooney trabalha perfeitamente, mas um dos grandes destaques nessa obra do diretor Noah Baumbach  (História de um casamento) é a atuação de Adam Sandler, mais uma vez, o ator que se consolidou com a comédia pastelão mostra seu enorme talento camaleônico em outros gêneros, como fez em Joias Brutas, dos irmãos Safdie, e  Embriagado de Amor de Paul Thomas Anderson. Sandler traz, Ron, um agente que tenta equilibrar família e trabalho com grande dificuldade. Com gigantesco sentimento de amizade por seu cliente, Jay Kelly,  se encontra em situações extremamente complicadas e é forçado a se deparar com tudo que já abriu mão em prol da amizade que muitas vezes parece ser unilateral.

Em contraponto a Kelly que se dedicou a uma parte da vida e deixou outra de lado, temos o ator Ben Alcock (interpretado por Patrick Wilson). Ele é indicado aos mesmos prêmios que Kelly, possui o mesmo agente, e ainda assim consegue tempo para a família que está sempre a seu lado.

O casting muito bem entrosado, conta ainda com pequena participação da filha de Sandler, Sadie, e Laura Dern (Veludo Azul), em relação que remete a “Casablanca” (1942). “Jay Kelly” que está em cartaz na Netflix, foi indicado a dois prêmios no Globo de Ouro. Apesar da metalinguagem cinematográfica, utilização de monólogos teatrais e o enredo que gira em torno de um ator, o filme funciona como uma metáfora para outras profissões e escolhas de vida.