Enterre Seus Mortos

Enterre Seus Mortos é uma produção brasileira que mescla suspense, drama e elementos de terror distópico. A obra tem despertado forte interesse no circuito de festivais, impulsionada por seu clima carregado e pela condução de Marco Dutra (diretor de As Boas Maneiras). O roteiro adapta o livro homônimo de Ana Paula Maia, autora reconhecida por abordar o trabalhador braçal e o contato humano com a morte e a decomposição, aspectos que o filme preserva com fidelidade. Com Selton Mello (Ainda Estou Aqui) no papel central, o longa se destaca por uma atmosfera que provoca desconforto, propondo uma análise social e ecológica a partir da morte de animais e da ruína do cenário.

Sinopse: “Em um futuro próximo e sombrio, o mundo enfrenta um colapso ambiental sem precedentes. Edgar Wilson (Selton Mello) trabalha como técnico de remoção de animais mortos em uma pequena cidade rural, percorrendo estradas desoladas para recolher carcaças sob um clima instável. Ao lado de sua parceira de trabalho, Nete (Marjorie Estiano), ele tenta manter a normalidade em meio ao caos iminente. No entanto, sua rotina é interrompida quando ele se depara com uma descoberta perturbadora que o força a questionar suas convicções e a enfrentar os mistérios de uma terra que parece não mais sustentar a vida.”

A ambientação na cidade fictícia de Abalurdes utiliza locações de um interior remoto para evocar uma sensação de isolamento e inércia. Ao transformar o cenário rural em um espaço de transição, o longa-metragem estabelece um campo de incerteza, onde a realidade parece estagnada em um território de abandono. Essa percepção é reforçada por escolhas técnicas que privilegiam movimentos de câmera instáveis, transmitindo ao público o desequilíbrio de um mundo à beira do abismo. Complementando essa construção, a fotografia faz uso recorrente da cor vermelha, não apenas para representar o aspecto orgânico do fim, mas como um sinal de alerta. Essa tonalidade funciona como um guia que pontua a urgência e a decadência que cercam os personagens.

A narrativa estabelece um diálogo direto com as incertezas recentes ao incorporar elementos de um colapso social que remete às experiências de isolamento vividas globalmente nos últimos anos. Essa proximidade com eventos verídicos reduz o caráter fantasioso da obra, tornando o cenário de ruína muito mais palpável para quem assiste. Em meio a essa desolação, surgem momentos em que a lógica convencional é deixada de lado em favor de um horror que flerta com o incompreensível. Essas passagens, que desafiam o senso comum, exploram o medo de forças que transcendem a razão humana, resultando em sequências que ampliam o estranhamento diante de um destino incerto.

Os questionamentos sobre o bem e o mal permanecem válidos quando a sobrevivência se torna a única prioridade? Nesse contexto de desolação, os indivíduos parecem transformados e desprovidos de compaixão diante da catástrofe. Essa lacuna de humanidade abre caminho para uma seita que se infiltra na comunidade, oferecendo o fanatismo religioso como um refúgio desesperado. Ao explorar a ascensão desse novo dogma como resposta ao caos, o espectador é conduzido a uma reflexão central sobre a natureza da crença em tempos de crise extrema. Quando as instituições falham e a estrutura do mundo conhecido se desintegra, resta a dúvida sobre o que sustentará o espírito humano e a quem se recorrerá em busca de amparo no ato final.

Enterre Seus Mortos pode ser considerado um exemplar relevante do atual cinema de gênero nacional por utilizar as convenções do medo para articular reflexões sobre dilemas socias e existenciais. Contudo, sua proposta é atenuada por um ritmo muito vagaroso, que pode tornar a experiência cansativa para boa parte do público. Essa cadência lenta, somada às passagens de maior estranhamento com a quebra de lógica, acaba limitando o alcance da obra, dificultando o equilíbrio entre sua temática e o engajamento de quem assiste. Assim, embora possua méritos em sua construção de mundo, o resultado final entrega uma produção que oscila entre a importância de sua mensagem e uma execução que nem sempre prende a atenção de maneira constante.