Os Enforcados
Os Enforcados marca o aguardado retorno do diretor Fernando Coimbra ao cinema nacional. Com um roteiro premiado no Festival de Sundance ainda em sua fase de escrita, o projeto foi desenvolvido ao longo de anos e contou, inclusive, com a colaboração de Fernanda Torres. A produção utiliza a Barra da Tijuca como cenário para uma releitura de Macbeth, transpondo a tragédia shakespeariana para o universo do crime organizado carioca. Com uma estética carregada de simbolismos, que vão do tarô a figuras de rinocerontes, a obra destaca-se por inverter dinâmicas de poder e explorar a paranoia de uma alta classe decadente, consolidando-se como um thriller psicológico que une o fetiche à brutalidade.
Sinopse: “Valério (Irandhir Santos) e Regina (Leandra Leal) formam um casal da elite carioca que vive sob a sombra do império de contravenção herdado da família dele. Pressionados por dívidas e movidos por uma ambição desenfreada, ambos planejam o assassinato do tio de Valério, o atual chefe do jogo do bicho, na esperança de assumir os negócios e garantir liberdade financeira. No entanto, o que deveria ser um crime perfeito desencadeia uma reação em cadeia de violência, lançando-os em uma espiral de autodestruição onde cada tentativa de encobrir o rastro de sangue os prende ainda mais em uma teia de traições e culpa.”
Não tinha feito essa conexão de imediato, mas é inegável a inspiração em Macbeth, por mais que ele esteja incorporado nos tempos atuais no universo da contravenção carioca. O diretor Fernando Coimbra adapta a trama de ambição e transforma Regina (Leandra Leal) em Lady Macbeth. Ela personifica a frieza e o cálculo, transformando o que seria um drama familiar em uma crônica cruel sobre o preço da ascensão social. Essa conexão com o clássico de Shakespeare eleva o filme de um simples suspense policial a uma tragédia humana universal, onde a busca pelo poder é indissociável da ruína moral.
O filme surpreende de forma inesperada. Embora soubesse do seu destaque em festivais, eu não estava preparado para o impacto da obra. O desfecho trágico e arrebatador me assolou de forma esplêndida. Visualmente, a narrativa foge dos clichês solares do Rio para explorar a apatia dos condomínios da Barra da Tijuca. A direção de fotografia cria uma sensação de isolamento claustrofóbico mesmo em grandes mansões, efeito fundamental para sustentar a tensão e imergir o espectador na paranoia do casal. Os muros altos, que deveriam protegê-los, revelam-se as paredes de uma prisão construída por eles mesmos.
O entrosamento entre Irandhir Santos e Leandra Leal é o coração da obra. A química entre os protagonistas transita entre o desejo e o desespero, revelando uma dependência que transcende o crime. É fascinante observar a metamorfose dos personagens: Valério inicia a jornada como um homem passivo, quase relutante, enquanto Regina domina a cena com determinação inabalável. À medida que o plano desmorona, os papéis se invertem e se deformam, expondo a fragilidade de um grupo que, apesar de se julgar acima da lei, é consumido pela própria brutalidade. O medo e a culpa tornam-se densos, gerando um efeito de destruição inevitável.
Os Enforcados consagra-se como um excelente suspense contemporâneo ao provar que a maior prisão não é feita de grades, mas de escolhas irreversíveis. As performances viscerais de Irandhir e Leandra retratam um casal unido pelo desejo e fragmentado pelo remorso, sendo este um dos pontos altos da trama. O longa transcende o gênero para se tornar um estudo perturbador sobre a decomposição ética de uma classe que, em nome de uma “vida limpa”, mergulha no lodo. Sem saídas fáceis ou redenção, o filme deixa o espectador hipnotizado por uma queda livre, reafirmando que, no tabuleiro da ambição, o destino raramente aceita trapaças.
