Manas é um longa-metragem dirigido por Marianna Brennand, que marca a transição da cineasta do gênero documental para a ficção ao abordar a violência de gênero e o abuso infantil na Região Amazônica. Realizada em uma cooperação entre Inquietude, Globo Filmes, Canal Brasil, Pródigo Filmes e Fado Filmes, a produção acumulou dezenas de prêmios no circuito nacional e internacional, incluindo o Director's Award na mostra Giornate degli Autori do Festival de Veneza. A obra também se destacou no Prêmio Grande Otelo, onde venceu em categorias centrais como Melhor Longa-Metragem de Ficção, Melhor Direção, Melhor Roteiro Original e Melhor Atriz Coadjuvante para Dira Paes.
Sinopse: “Marcielle (Jamilli Correa), de 13 anos, vive em uma comunidade ribeirinha na Ilha do Marajó (PA) com o pai, a mãe e três irmãos. Instigada pelas falas da mãe, ela cultua a imagem de Claudinha, sua irmã mais velha, que teria partido para longe após 'arrumar um homem bom' nas balsas que passam pela região. Conforme amadurece, Tielle vê suas idealizações ruírem e fica presa entre dois ambientes abusivos. Ciente de que o futuro não lhe reserva muitas opções, ela decide confrontar a engrenagem violenta que rege sua família e as mulheres da sua comunidade.”
Inicialmente apresentada pela rotina de uma família aparentemente unida, a narrativa passa por uma transição gradual que constrói uma atmosfera de tensão e desconforto à medida que a verdadeira natureza das relações familiares é revelada. Embora enquadrada como drama, a obra opera como um registro de horror cotidiano ao expor a naturalização de crimes contra vulneráveis em comunidades isoladas. Dessa forma, ao trazer à tona a brutalidade de um contexto social frequentemente ignorado, a história expõe uma realidade distante da maior parte do público, mas profundamente enraizada em parcelas do país.
A condução de Marianna Brennand opta por uma abordagem contida ao evitar a exibição direta de atos de violência, priorizando o recurso da sugestão e do implícito. A construção da atmosfera de tensão se apoia no uso do som, na troca de olhares e na presença do silêncio, elementos que comunicam a gravidade das situações sem recorrer à exploração apelativa ou ao choque visual. Essa escolha preserva a integridade da narrativa e das personagens, transmitindo ao espectador o rigor e o peso da realidade retratada sem a necessidade de recursos graficamente explícitos.
No núcleo familiar, a engrenagem do abuso é sustentada por papéis rígidos e por uma forte contradição moral. A figura paterna, interpretada por Rômulo Braga (Homem com H), se apresenta como um provedor religioso e dedicado, ocultando sob essa conduta pública a prática de atos violentos no espaço doméstico. A mãe, condicionada pela dependência econômica e pela aceitação de costumes locais, adota uma postura de omissão e repasse de culpa à filha, refletindo a perpetuação desse ciclo. Os demais filhos evidenciam diferentes respostas a esse sistema: o irmão mais velho demonstra uma apatia que reproduz a dominação masculina, enquanto a lembrança da irmã ausente permanece como uma incerta tentativa de fuga. Diante disso, a proteção à irmã caçula se torna o principal elemento de motivação da protagonista para enfrentar o contexto em que vive.
A dimensão do problema ultrapassa o âmbito doméstico e se estende às dinâmicas econômicas e sociais da região. O enredo expõe a vulnerabilidade de jovens atraídas por homens mais velhos em embarcações locais, onde promessas de ascensão e estabilidade financeira resultam em exploração e prostituição. Essa rede de abusos é favorecida pela ausência de canais efetivos de proteção: as instâncias comunitárias e religiosas tendem a reforçar discursos de resignação diante dos conflitos familiares, enquanto os pedidos de ajuda apresentados a conhecidos encontram apenas respostas evasivas. Assim, a falta de amparo institucional e social contribui para a continuidade e a impunidade dessas práticas na localidade.
O desempenho do elenco principal é um dos fatores que sustentam a narrativa, sobressaindo-se pela sobriedade das interpretações. A jovem estreante Jamilli Correa imprime à protagonista uma presença equilibrada e expressiva, conduzindo a carga dramática com notável maturidade e sem recorrer a excessos sentimentais. De forma complementar, Rômulo Braga constrói o antagonista de maneira humanizada e distante de caricaturas simplistas, compondo uma figura cuja atitude cotidiana e tom natural tornam a ameaça do personagem ainda mais marcante e convincente.
Manas se encerra com um final que traz um sentimento de alívio e justiça após a sequência de acontecimentos pesados ao longo da história. Embora o tema difícil possa afastar o grande público e limitar o filme a um circuito mais restrito, se trata de uma obra fundamental do cinema brasileiro, cuja relevância social torna sua exibição e discussão indispensáveis. Por meio de uma denúncia necessária e corajosa, a produção consegue transformar uma dor silenciosa em um chamado urgente por conscientização e transformação.
